junho 2013

o c.r.u pela Carolina Höfs

Rua do Benformoso. Um corpo de mulher. Um vestido, uma cabeleira, lantejoulas, um disfarce, um personagem, uma persona, uma pessoa, um trânsito. A efemeridade da dança agora que afirma outros corpos que habitam aquele corpo, aquele espaço e também o meu. O seu. O dela ali dançando com o vestido, a peruca, as pulseiras, as lantejoulas, o cigarro, a imperial, o salto fino, o corpo magro, o rabo gordo, a barriga saliente, o bigode bem cortado, o cinto mal amarrado, a voz embriagada, a bicicleta roubada, as roupas lavadas.

Ali, num corpo em festa, que muito antes se fizera um corpo manifesto, um media daqueles outros, uma potência de vida que instiga, fofoca, conta, traz pra perto, pergunta, oferece.

Um dia, um homem passa. Para. Ri. Pergunta a “amiga” do lado o que aquela anda por ali a fazer. Pergunto-me se esta pergunta sequer importa no trabalho na rua. No trabalho no corpo. Do corpo. A amiga o ofende. Como pode insultar um trabalho com sua ignorância? Eu não sei de nada. Mas eu aprendi com aquele corpo ali que temos que nos dar o tempo da escuta, do estar com. De ousar nossa prontidão animalesca. De não agarrar o primeiro impulso que me faz classificar o que atravessa o meu caminho.

Outro dia, mesmo homem. Para. Acompanha. Entra para o bar. A música lá de dentro chega cá fora. Entra no poema do espaço para o espaço. No poema das relações para a relação que está ali. Com a amiga logo em frente, com a que está no seu bar, com seu namorado, com a senhora dos caracóis, com a menina aprendendo a andar. Pausa. O homem irrompe. Traz uma garrafa d’água, um pedaço de pão, presunto e queijo. Para recarregar as energias. Eu te respeito. Aceno de cabeça. Isso sim. Isso sim. Tá agora deixa mais ela descansar.

 Um outro dia. O mesmo homem. Apanhado pelas mãos que tocam o ar, pelos olhos que olham intermitentes. Pelo corpo que se faz fino e de membranas líquidas. A amiga parecia escorregar por ali. O homem também. A amiga não o quer ali. A dança é pra ela. Mais nada. Mais ninguém. Uma dança tão colectiva, tão esparramada e também tão singular, tão para apenas um só, tão contida.

Perguntas sobre transformações. Efemeridades quotidianas, que registam a cumplicidade de viver as mudanças de um espaço. Um pedaço de urbe com nome pomposo, com novas propostas/imposições para sua fama de decadência, marginalidade e abandono. As sombras do largo ensolarado com novo piso, nova imagem, novas árvores, novas actividades, ainda pulsam na convivência entre donos de comércio, bares, vendedoras de sexo, clientes, vendedores de drogas, clientes, moradores jovens, crianças, velhos, homens, mulheres.

O corpo resiste na urbe dos jogos de poderes, na podridão dos poderes. Destila poesia. Chora poesia. Vive poesia. Dignifica a sombra. Manifesta sua sobrevivência. Efemeramente, durante anos, instila vontade de saber. Instila perguntas que talvez ainda não sejam feitas de palavras, mas do estranhamento perante uma ordem dada. Contamina e quebra distâncias entre aquele e esse logo aqui, em mim.

 

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